Maricá/RJ,

Por um cotidiano educacional antirracista


Crédito: Diego Balbino


O silêncio sobre o racismo, o preconceito e a discriminação nas diversas instituições educacionais brasileiras não só fornece subsídios para a histórica orientação eurocêntrica da nossa educação como impede que os seres humanos se formem em sua plenitude, livres de estereotipias negativas em relação à ancestralidade africana e às contribuições da população negra no Brasil. 

Pelos motivos acima expostos, tratar de maneira coletiva e afirmativa as identidades - e, mais especificamente, a identidade negra - de crianças, adolescentes, jovens e adultos presentes nas salas de aula é necessidade urgente e prerrogativa básica de uma comunidade escolar que busca colaborar para uma sociedade antirracista.

Instaurar uma cultura de valorização da consciência negra na escola depende de uma total perda de conceitos pré-formulados e ultrapassados do papel dos(as) educadores(as) e de seus/suas educandos(as). Afinal, para muitas escolas brasileiras, dialogar sobre as negritudes presentes em seu cotidiano é tarefa prevista apenas para o mês de novembro ou sequer está presente e/ou transversaliza o planejamento curricular da instituição. 

Nesse sentido, parece possível afirmar que o indivíduo, quando inserido em uma sociedade em que o racismo é algo comum e institucionalizado, tende a compreender a discriminação racial, por exemplo, como algo natural e imutável, muitas vezes. Por esse motivo, defendemos a presença dos discursos e das práticas antirracistas dentro e fora das salas de aulas, a fim de construir espaços em que o convívio entre as diferentes personagens da comunidade escolar possa ocorrer de forma justa e o mais distante possível de práticas discriminatórias e excludentes.

Não é sem razão que a eficácia da ideologia racial dominante em nosso país manifesta-se, por diversas vezes, na ausência do conflito racial aberto, em que negros(as) não são “explicitamente” atacados(as), mas impingidos(as) de um racismo cordial cortante, em que se baseia a ideia de que, se o(a) negro(a) não alcançou os mesmos direitos da pessoa branca, o problema é do(a) negro(a) e não do branco.

A coragem de travar micro-revoluções dentro e fora das salas de aula não pode faltar a educadoras e educadores brasileiras(os) comprometidas(os) com uma sociedade antirracista. Para esse grupo, o exercício da alteridade – ou seja, da construção de identidades a partir da relação com o outro e com o mundo - e da dialogicidade passam a ser poderosas ferramentas para o enfrentamento de problemas que, muitas vezes, se apresentam ideologicamente minimizados em uma sociedade que se autoconsidera uma “democracia racial”. 

O processo pode ser mais lento do que nossa ansiedade almeja, mas é preciso continuar as lutas que já foram iniciadas e abrir espaço para novos enfrentamentos, a fim de romper com o que está dado e possibilitar a descolonização efetiva do currículo e do pensamento dominantes.
Nesse sentido, a AfroeducAÇÃO, a partir das bases conceituais e práticas da Educomunicação (para saber mais, acesse aqui), busca, desde 2008, atuar em prol de uma educação antirracista levada a sério, com ações que estão organizadas em torno da cultura e da comunicação. 

Nossa meta é colaborar para a construção de novos paradigmas étnico-raciais dentro e fora das escolas brasileiras, a fim de aplicar efetivamente as premissas da Lei Federal 10.639/03, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases Nacional, com destaque para o artigo 26-A, e nos convoca à obrigatoriedade de incluir nos currículos das escolas brasileiras conteúdos relacionados às culturas e às histórias afro-brasileiras e africanas. 

Já completamos 12 anos da aprovação da lei acima citada e não podemos nos calar ou negar a contribuição individual e coletiva que podemos dar à aplicação das prerrogativas estabelecidas em lei, sobretudo pelo fato de que não estamos destacando aqui a importância apenas do respeito à legislação, mas, sim, do respeito e da valorização das diferenças que compõem a história e a cultura de nosso país, com suas complexidades e diversidades que não podem “passar em branco” no cotidiano educacional brasileiro.

*Paola Prandini é fundadora e diretora da AfroeducAÇÃO, mestra em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e educomunicadora que se move em prol de um país antirracista. Instagram e Twitter: @afroeducacao.

Fonte: http://www.promenino.org.br/

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