Maricá/RJ,

UMA ARTE QUE CORRE PELO CORREIO


Joaquim Branco

A Arte Postal surgiu na década de 1960, nos Estados Unidos, mas só se tornou um movimento com repercussão internacional 10 anos depois, quando foi se formando uma rede através da qual poetas do mundo inteiro puderam se comunicar.

Consiste ela na criação de um cartão, que o poeta veicula pelos Correios, ao qual se agregam alguns elementos, tendo por base um texto curto e incisivo e uma imagem (desenhos, figuras etc.). Também podem fazer parte do conjunto os selos, carimbos e objetos facilmente incorporados a eles como barbantes, grampos, clips, panos, esparadrapos e todo material que possa contribuir para a comunicação a se criar. A esse conjunto cujo componente primordial é o próprio cartão se denomina Arte Postal ou Arte por Correspondência, ou ainda Arte-Correio, sobre a qual o crítico de artes Walter Zanini disse: “(...) pode ser considerada como um dos fenômenos mais agudos da vanguarda internacional...” 
Trata-se de uma forma de arte que circula basicamente de poeta para poeta, mas que alcança o grande público por meio de exposições e antologias e da própria manipulação que sofre o cartão até chegar ao seu destinatário. Outra característica importante é a dessacralização da autoria, pois os poetas, muitas vezes, se utilizam de obras chamadas clássicas ou de logotipos de empresas, fotos etc. e os incorporam naturalmente ao seu poema, numa crítica direta ao copyright e ao sistema.

Nos países do Terceiro Mundo, esta foi a resposta dos poetas, num dado momento cul-tural, às dificuldades criadas pela censura (notadamente na época das ditaduras sul-americanas), pelas editoras e pelos veículos tradicionais que até hoje não divulgam o produto de vanguarda. 
Impedido de atuar por todos esses fatores, o poeta lançou mão do cartão ‘fabricado’ por ele mesmo, adicionando-lhe carimbos, slogans, selos próprios e reproduzindo em xerox a maior parte de seus trabalhos. 

Era o artesanal unido ao prático e favorecendo a veiculaçào das mais variadas formas de vanguarda como a Pop-Art, Minimal-Art, Arte Povera, Poesia Visiva, Junk-Art, Arte Conceitual, Concretismo, Poema-Processo e outras. 

No Brasil, a arte postal foi o veículo mais adequado en¬contrado pelos movimentos denominados marginais na busca de sua internacionalização. Na Arte-Correio, é importante a soma de modificações que se processam na obra durante a remessa, isto é, “o ruído do meio usado integra a estrutura da obra ou mesmo torna-se a obra em si”, segundo o poeta uruguaio Clemente Padin. 
Contemporaneamente, a corrente de Arte Postal se reduziu, mas ainda resiste para marcar e tomar posições contrárias em relação a temas e eventos como prisões ilegais, demonstrações de racismo, pressões e dominações de uns países por outros, crimes de poluição ambiental e injustiças sociais de toda ordem.

Guardadas as proporções e certas características, essa forma de arte foi uma espécie de precursora da internet, a grande rede que hoje liga as pessoas mundialmente. Como sempre, os poetas captaram – com suas poderosas antenas – mecanismos, comportamentos e atitudes que, anos depois, iriam se tornar comuns não só a eles, mas a todas as pessoas.

Joaquim Branco: Poeta, crítico, professor de literatura e produção de textos e pesquisador; doutor em literatura comparada pela UERJ.

(Cataguases/MG)

(Crédito da imagem: Foto das publicações de Joaquim Branco)

1 comentários:

Joaquim Branco 14 de novembro de 2016 13:20  

Gostei de ver meu texto no seu blog.
Principalmente da ideia de colocar o poema de Joseph Huber como ilustração do texto, pois é bem representativo.
Parabéns pelo trabalho.
Abraço,
Joaquim

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