UMA ARTE QUE CORRE PELO CORREIO
Joaquim Branco

Consiste ela na criação de um cartão, que o poeta veicula pelos Correios, ao qual se agregam alguns elementos, tendo por base um texto curto e incisivo e uma imagem (desenhos, figuras etc.). Também podem fazer parte do conjunto os selos, carimbos e objetos facilmente incorporados a eles como barbantes, grampos, clips, panos, esparadrapos e todo material que possa contribuir para a comunicação a se criar. A esse conjunto cujo componente primordial é o próprio cartão se denomina Arte Postal ou Arte por Correspondência, ou ainda Arte-Correio, sobre a qual o crítico de artes Walter Zanini disse: “(...) pode ser considerada como um dos fenômenos mais agudos da vanguarda internacional...”
Trata-se de uma forma de arte que circula basicamente de poeta para poeta, mas que alcança o grande público por meio de exposições e antologias e da própria manipulação que sofre o cartão até chegar ao seu destinatário. Outra característica importante é a dessacralização da autoria, pois os poetas, muitas vezes, se utilizam de obras chamadas clássicas ou de logotipos de empresas, fotos etc. e os incorporam naturalmente ao seu poema, numa crítica direta ao copyright e ao sistema.
Nos países do Terceiro Mundo, esta foi a resposta dos poetas, num dado momento cul-tural, às dificuldades criadas pela censura (notadamente na época das ditaduras sul-americanas), pelas editoras e pelos veículos tradicionais que até hoje não divulgam o produto de vanguarda.
Impedido de atuar por todos esses fatores, o poeta lançou mão do cartão ‘fabricado’ por ele mesmo, adicionando-lhe carimbos, slogans, selos próprios e reproduzindo em xerox a maior parte de seus trabalhos.
Era o artesanal unido ao prático e favorecendo a veiculaçào das mais variadas formas de vanguarda como a Pop-Art, Minimal-Art, Arte Povera, Poesia Visiva, Junk-Art, Arte Conceitual, Concretismo, Poema-Processo e outras.
No Brasil, a arte postal foi o veículo mais adequado en¬contrado pelos movimentos denominados marginais na busca de sua internacionalização. Na Arte-Correio, é importante a soma de modificações que se processam na obra durante a remessa, isto é, “o ruído do meio usado integra a estrutura da obra ou mesmo torna-se a obra em si”, segundo o poeta uruguaio Clemente Padin.
Contemporaneamente, a corrente de Arte Postal se reduziu, mas ainda resiste para marcar e tomar posições contrárias em relação a temas e eventos como prisões ilegais, demonstrações de racismo, pressões e dominações de uns países por outros, crimes de poluição ambiental e injustiças sociais de toda ordem.
Guardadas as proporções e certas características, essa forma de arte foi uma espécie de precursora da internet, a grande rede que hoje liga as pessoas mundialmente. Como sempre, os poetas captaram – com suas poderosas antenas – mecanismos, comportamentos e atitudes que, anos depois, iriam se tornar comuns não só a eles, mas a todas as pessoas.
Joaquim Branco: Poeta, crítico, professor de literatura e produção de textos e pesquisador; doutor em literatura comparada pela UERJ.
(Cataguases/MG)
(Crédito da imagem: Foto das publicações de Joaquim Branco)
1 comentários:
Gostei de ver meu texto no seu blog.
Principalmente da ideia de colocar o poema de Joseph Huber como ilustração do texto, pois é bem representativo.
Parabéns pelo trabalho.
Abraço,
Joaquim
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