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Poesia infantil: gênese e identidade

Maurício Silva 

Quando se fala em poesia de modo geral, e particularmente de poesia infantil, não se pode prescindir de uma abordagem fundamental para se apreender todo o intricado mundo da arte poética:trata-se de seu âmbito estrutural, que, associado ao já citado universo infantil, faz dessa poesia um campo particularmente propício à representação do imaginário da criança. Nesse sentido, qualquer análise que se pretenda fazer da poesia infantil requer um domínio relativamente amplo dos componentes estruturais que determinam sua constituição como gênero literário, já que os efeitos estéticos promovidos pelo texto poético ganham especial relevo quando se trata de um público diferenciado, como é aquele composto por crianças. 

Há, por exemplo, um particular interesse da parte do público infantil pelo ritmo poético, uma vez que, mais do que qualquer outro potencial leitor/ouvinte, a criança identifica no texto poético uma inextricável relação entre a palavra e sua cadência melódica, relação esta que acaba lhe acarretando um agradável efeito musical. Na poesia infantil, portanto, ritmo e métrica são trabalhados em toda sua ilimitada potencialidade. Parentesco fônico entre determinadas partes dos vocábulos – ora no fim dos versos, ora no meio –, a partir da repetição de sons semelhantes, a rima é outra instância estrutural do poema que atinge sua plenitude expressiva no âmbito da poesia infantil, podendo ser trabalhada tanto do ponto-de-vista de sua posição no verso e da semelhança dos fonemas quanto do ponto-de-vista de sua distribuição no corpo do texto e de sua tonicidade. 
Por fim, mais ligada à visualidade do que à sonoridade, as estrofes atuam como articuladores da unidade do poema, por meio da composição dos versos em conjuntos distintos. 

MAURÍCIO SILVA 
Professor de Literatura Brasileira e Literatura Infantojuvenil 
(graduação e pós-graduação), no Centro Universitário 
Nove de Julho (UNINOVE); pós-doutorado em Literatura 
Brasileira pela Universidade de São Paulo. 

Nota: Este artigo lhe interessou? 
Procure por: “Poesia infantil contemporânea: dimensão 
linguística e imaginário infantil”, Maurício Silva

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Como escolher o melhor livro para crianças de diferentes idades?


O contato com livros ajuda a criança a desenvolver diferentes habilidades, dependendo da sua idade e da fase de desenvolvimento em que ela está. Um bom livro para crianças de cada idade pode incentivar a curiosidade e a imaginação, assim como ajudar a desenvolver a concentração e o raciocínio lógico. Além disso, o hábito da leitura fortalece o vínculo entre o pequeno e quem lê para ele, o que torna os livros presentes muito especiais

Muitas vezes, as histórias que as crianças lêem na infância serão lembradas na vida adulta e repassadas para as próximas gerações. Por isso, é preciso escolher livros infantis com muito carinho. 

É só entrar em uma livraria e procurar a seção infantil para perceber como é difícil escolher um livro para crianças. A variedade é tanta: clássicos, livros interativos, de personagens famosos, de poesia.
Para familiares e amigos que não convivem diariamente com a criança, pode ser difícil saber qual livro vai agradá-la e se ele é apropriado para a sua idade. Mesmo para mães e pais, nem sempre é fácil identificar qual é a história mais indicada naquele momento. 

Para escolher o melhor livro para crianças, é preciso levar em consideração a fase de desenvolvimento em que ela se encontra, o que chama mais a sua atenção e quais habilidades ela está desenvolvendo no momento. 

Aqui estão algumas dicas para selecionar livros que serão interessantes e servirão de incentivo para os pequenos de cada idade: 

Crianças de 0 a 2 anos 

Crianças de até 2 anos de idade exploram o mundo com os seus 5 sentidos. Eles ouvem o que as pessoas falam ao seu redor e estão aprendendo a formar significado para as palavras. Para essa faixa-etária, escolha livros com: 
Desenhos em cores vibrantes: isso ajuda a criança a focar a visão enquanto ela ainda está se desenvolvendo. 
Texturas e volumes: páginas com texturas diferentes estimulam o tato. 
Poucos objetos por página e frases simples: quando o texto se refere diretamente à ilustração, as crianças aprendem a criar associações entre eles. 
Música: sejam acompanhados por música ou com textos que podem ser cantados, o estímulo musical nos livros ajuda na atenção e pode também acalmar a criança. 
Rimas e ritmo: crianças nessa fase aprendem por repetição, e livros com rimas são divertidos para ler em voz alta. 

Crianças de 3 a 5 anos 

As crianças nessa idade começam a expressar seus sentimentos, a falar e a fazer muitas perguntas. Ainda não sabem separar a fantasia da realidade, por isso podem ter medo de figuras assustadoras. Nessa fase são indicados livros com: 
Situações cotidianas: ajudam a criança a aumentar seu vocabulário para conseguir se expressar e compreender acontecimentos do seu dia-a-dia. Livros sobre a hora de dormir são ótimos para ajudar os pequenos a relaxar no final do dia. 
Informações simples: livros que tratam de um único tema, como animais, sentimentos, cores e formas ajudam a criança a aprender com mais foco. 
Temas sobre amizade e diferenças: nessa idade as crianças começam a aprender a dividir e a brincar com outras, e já notam diferenças étnicas, raciais e de gênero. É um momento importante para ensinar sobre outras culturas, sobre respeito e empatia. 
Conceitos básicos de letras e números: crianças com 4 anos já sabem contar até 10 e começam a se familiarizar com letras. Nos livros sobre o ABC, a associação das letras com estímulos visuais ajuda o aprendizado. Procure livros escritos em letras grandes e de bastão. 
Estímulos previsíveis: livros que permitem que as crianças preencham os espaços em branco e adivinhem o que vem a seguir são muito intrigantes nessa fase. 

Crianças de 6 a 8 anos 

A partir dos 6 anos, as crianças já leem sozinhas, têm maior foco e conseguem prestar atenção por mais tempo. Algumas características para buscar um livro para crianças dessa faixa-etária são: 
Histórias mais complexas: as crianças já entendem que as histórias tem começo, meio e fim. É bom estimular a leitura com livros divididos em capítulos, que possam ser lidos em vários dias. 
Conteúdos relacionados ao que ela aprende na escola: leituras sobre ciência, sobre o alfabeto e sobre matemática fora da escola ajudam a criança a relacionar os conceitos e aprender de forma mais divertida. 
Ação e aventura: crianças nessa fase se interessam por histórias emocionantes, e se o livro não tiver aventura elas podem achar a história sem graça. Elas já lidam melhor com a violência, desde que o livro reforce exemplos positivos no final. 

Crianças 9 a 12 anos 

Nessa idade, as crianças já conseguem expressar suas opiniões, querem fazer as coisas sozinhas e fazem questionamentos morais e éticos. Os livros ajudam a incentivar o pensamento crítico, o conhecimento dos próprios sentimentos e até do corpo. Essas crianças se interessam por: 
Ficção científica e relatos históricos: são assuntos de interesse nessa idade, quando já se sabe identificar e separar a fantasia da realidade. 
Assuntos mais complexos: as crianças já podem aprender com temas como separação, rejeição e decepção. As experiências dos livros ajudam a enfrentar dificuldades da pré-adolescência. 
Protagonistas que geram identificação: crianças nessa idade já estão se preparando para entrar na adolescência e buscam referências para se espelhar. Por isso, elas se atraem por histórias com protagonistas da sua idade ou um pouco mais velhos, que passam pelo mesmo momento e começam enfrentar os desafios da puberdade. 
Suspense e terror: tomando cuidado com conteúdos violentos, livros de terror são muito atrativos para essa idade e histórias com suspense ajudam a criança a não perder o interesse durante a leitura. 

Aposte em diversidade 

Desde a infância, é importante apresentar diferentes tipos de livro para crianças, de diversos gêneros literários. Isso faz com que elas aos poucos definam seus gostos e também aprendam a escolher novos livros para ler. Explore clássicos, lançamentos, histórias em quadrinhos, de poemas, contos de fadas, livros personalizados, histórias reais e tantas outras opções. Vale a pena levar a criança para a livraria e deixá-la experimentar todas elas! 

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COMO ESTIMULAR O HÁBITO DE LEITURA NAS CRIANÇAS.


Confira dicas do que você pode fazer para que LER seja uma atividade sempre prazerosa para o seu filho, desde cedo – inclusive nos tablets.

1. O primeiro – e principal – passo é dar o exemplo. Tenha livros em casa e, o mais importante: leia com (e para) a criança. “Pais leitores terão mais facilidade para criar o mesmo hábito nos filhos”, afirma Gislene Gambini, proprietária da livraria Novesete, em São Paulo.

2. Vá com as crianças a espaços culturais, como os Sescs, onde sempre há eventos relacionados ao universo literário, como contações ou peças de teatro adaptadas de livros.

3. Em bibliotecas e livrarias, em vez de deixar a meninada sozinha explorando as prateleiras, ajude a escolher as obras mais adequadas e leia as histórias. Aproveite a ocasião para ensinar que é preciso cuidar do livro – ou seja, que não vale rasgar, amassar ou rabiscar as páginas.

4. Em casa, deixe os livros em locais de fácil acesso para o seu filho. Para a bibliotecária Luciana Marques da Silva, que trabalha na Biblioteca de São Paulo, vale ter exemplares na caixa de brinquedos, na banheira e no berço (e não só na estante).

5. E ainda vale outra dica: não basta apenas deixar os livros à vista das crianças. “É preciso ‘fazer a ponte’, criar o interesse. O pai precisa ser o mediador nessa relação”, diz Paula Yurie, coordenadora educativa do Espaço de Leitura, no Parque da Água Branca, em São Paulo.

6. Leia para o seu filho na hora de dormir, mas crie também outros momentos de leitura no dia a dia: depois das refeições, na volta da escola.... Seu filho vai visitar o amigo? Coloque o livro preferido dele na mochila. E se no fim de semana vai receber os amigos dele em casa, incentive uma roda de leitura. A partir da história de um livro, pode surgir uma brincadeira.

7. Mesmo que seu filho ainda não saiba ler, deixe que ele conte o enredo à sua maneira. E lembre-se: crianças costumam pedir pela mesma história mais de uma vez.

8. Leia para seu filho desde bebê. Invista em livros de tecido, de plástico, cartonados, com texturas, pop-ups (os mais simples, não os muito elaborados) e deixe que ele “brinque” com as páginas. Assim, ele já se familiariza com o objeto.

9. “Tocar a tela de um tablet é como virar a página de um livro”, diz Christine Fontelles, diretora de educação do Ecofuturo. Ela acredita que o gosto pela leitura pode ser estimulado tanto a partir de uma plataforma impressa quanto de uma digital. Deixe que as crianças manipulem os apps, portanto, mas esteja por perto, conte aquela história para a criança (assim como faz com os livros).

10. Os livros digitais com recursos como sons e animações são mais atraentes. Mas, mesmo nos tablets, não deixe de procurar por obras com boas histórias e adequadas à idade do seu filho.

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UMA ARTE QUE CORRE PELO CORREIO


Joaquim Branco

A Arte Postal surgiu na década de 1960, nos Estados Unidos, mas só se tornou um movimento com repercussão internacional 10 anos depois, quando foi se formando uma rede através da qual poetas do mundo inteiro puderam se comunicar.

Consiste ela na criação de um cartão, que o poeta veicula pelos Correios, ao qual se agregam alguns elementos, tendo por base um texto curto e incisivo e uma imagem (desenhos, figuras etc.). Também podem fazer parte do conjunto os selos, carimbos e objetos facilmente incorporados a eles como barbantes, grampos, clips, panos, esparadrapos e todo material que possa contribuir para a comunicação a se criar. A esse conjunto cujo componente primordial é o próprio cartão se denomina Arte Postal ou Arte por Correspondência, ou ainda Arte-Correio, sobre a qual o crítico de artes Walter Zanini disse: “(...) pode ser considerada como um dos fenômenos mais agudos da vanguarda internacional...” 
Trata-se de uma forma de arte que circula basicamente de poeta para poeta, mas que alcança o grande público por meio de exposições e antologias e da própria manipulação que sofre o cartão até chegar ao seu destinatário. Outra característica importante é a dessacralização da autoria, pois os poetas, muitas vezes, se utilizam de obras chamadas clássicas ou de logotipos de empresas, fotos etc. e os incorporam naturalmente ao seu poema, numa crítica direta ao copyright e ao sistema.

Nos países do Terceiro Mundo, esta foi a resposta dos poetas, num dado momento cul-tural, às dificuldades criadas pela censura (notadamente na época das ditaduras sul-americanas), pelas editoras e pelos veículos tradicionais que até hoje não divulgam o produto de vanguarda. 
Impedido de atuar por todos esses fatores, o poeta lançou mão do cartão ‘fabricado’ por ele mesmo, adicionando-lhe carimbos, slogans, selos próprios e reproduzindo em xerox a maior parte de seus trabalhos. 

Era o artesanal unido ao prático e favorecendo a veiculaçào das mais variadas formas de vanguarda como a Pop-Art, Minimal-Art, Arte Povera, Poesia Visiva, Junk-Art, Arte Conceitual, Concretismo, Poema-Processo e outras. 

No Brasil, a arte postal foi o veículo mais adequado en¬contrado pelos movimentos denominados marginais na busca de sua internacionalização. Na Arte-Correio, é importante a soma de modificações que se processam na obra durante a remessa, isto é, “o ruído do meio usado integra a estrutura da obra ou mesmo torna-se a obra em si”, segundo o poeta uruguaio Clemente Padin. 
Contemporaneamente, a corrente de Arte Postal se reduziu, mas ainda resiste para marcar e tomar posições contrárias em relação a temas e eventos como prisões ilegais, demonstrações de racismo, pressões e dominações de uns países por outros, crimes de poluição ambiental e injustiças sociais de toda ordem.

Guardadas as proporções e certas características, essa forma de arte foi uma espécie de precursora da internet, a grande rede que hoje liga as pessoas mundialmente. Como sempre, os poetas captaram – com suas poderosas antenas – mecanismos, comportamentos e atitudes que, anos depois, iriam se tornar comuns não só a eles, mas a todas as pessoas.

Joaquim Branco: Poeta, crítico, professor de literatura e produção de textos e pesquisador; doutor em literatura comparada pela UERJ.

(Cataguases/MG)

(Crédito da imagem: Foto das publicações de Joaquim Branco)

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Sobre o Patrono da Biblioteca Monteiro Lobato


José Renato Monteiro Lobato nasceu em 18 de abril de 1882 em Taubaté, São Paulo. Modificou seu nome para José Bento Monteiro Lobato, desejando usar a bengala do pai gravada com as iniciais J.B.M.L. Ficou órfão aos 17 anos e permaneceu sob a tutela de seu avô, o Visconde de Tremembé.

Em 1904 bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco. Em 1911 seu avô faleceu deixando como herança uma fazenda, quando Lobato passou de promotor a fazendeiro. Leu e escreveu muito nessa fase da vida, trabalhou no meio rural e colaborou com inúmeros jornais e revistas. Criou o polêmico Jeca Tatu, personagem símbolo de sua obra.

Em 1917 vendeu a fazenda e mudou-se para São Paulo. Comprou a Revista do Brasil e publicou aos trinta e seis anos seu primeiro livro: Urupês. Foi dono de editora, jornalista, crítico de arte, tradutor e adido comercial da Embaixada Brasileira nos Estados Unidos durante quatro anos. Em 1929 lançou o livro Circo de Escavalinho, onde surge o Sítio do Picapau Amarelo, com Emília e seus imortais personagens.

Faleceu em 4 de julho de 1948, em São Paulo, deixando obras tanto para crianças e adolescentes quanto para adultos. Modernizou a indústria editorial brasileira, lutou pela preservação do nosso petróleo e por um Brasil mais moderno.

“No dia em que todas as cidades do Brasil tiverem uma biblioteca infantil, o Brasil está a salvo de todos os males, porque todos os males do Brasil têm uma causa única: a ignorância dos adultos, justamente porque não lhes foi despertado o amor pela leitura quando eram crianças”.

(Depoimento dado por Monteiro Lobato no dia da inauguração da biblioteca)

Algumas obras:

Urupês (1918); 
O Saci Pererê: resultado de um inquérito (1918); 
Cidades mortas (1919); 
Ideias de Jeca Tatu (1919); 
Negrinha (1920); 
A menina do narizinho arrebitado (1920);
Contos escolhidos (1923); As aventuras de Hans Staden (1927);
As reinações de Narizinho (1931);
Emília no país da gramática (1934);
Aritmética da Emília (1935);
O escândalo do petróleo (1936);
O museu da Emília (peça de teatro, 1938);
O Picapau Amarelo (1939);
A reforma da Natureza (1941);
Literatura do minarete (1948).

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Um milhão de crianças fora da escola


Frei Betto

Dados divulgados pelo IBGE em fins de julho/13, são alarmantes: 3% do total de crianças brasileiras de 6 a 14 anos se encontram fora da escola, o que representa quase 1 milhão de excluídos dos bancos escolares. Se incluirmos o contingente de 4 e 5 anos e de 15 a 17, o percentual aumenta para 8%, ou seja, 3,8 milhões de crianças e adolescentes.
Nenhum estado do país conseguiu, até hoje, incluir todas as crianças de 6 a 14 anos na escola. A pesquisa do IBGE revela ainda que, dessas crianças desescolarizadas, 62% já frequentaram a escola por algum tempo, mas abandonaram os estudos.
As razões da evasão precoce são muitas. As mais frequentes, porém, são a falta de interesse (falha pedagógica dos educadores), repetência, gravidez precoce e o imperativo de ingressar no mercado de trabalho para ajudar a família.
A desescolaridade provoca na criança e no adolescente baixa autoestima, tornando-os vulneráveis a propostas ilusórias de enriquecimento e consumismo fáceis através do tráfico de drogas e outras práticas criminosas.
Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), no mundo 215 milhões de meninos e meninas trabalham para sobreviver ou complementar a renda de suas famílias. Dessas crianças, metade está exposta a condições degradantes de trabalho, como escravidão, servidão por dívidas, exploração sexual com fins comerciais e atuação em conflitos armados.
O governo brasileiro já desenvolve intensa campanha contra a exploração sexual de crianças e o trabalho infantil. No entanto, é preciso aprimorar o combate a toda forma de violência contra crianças, em especial no âmbito familiar. Há que considerar também como violência à infância a extrema pobreza e determinados conteúdos do ciberespaço, pelo qual atuam os pedófilos e disseminadores de pornografia.

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RUBEM BRAGA (1913-1990) - Um cronista atemporal


Pedro Sprejer 

O centenário do inventor da crônica moderna brasileira foi lembrado na segunda-feira, dia 1º de abril/13, na edição do Prosa nas Livrarias que aconteceu na Travessa do Shopping Leblon. O jornalista e cronista do Globo Joaquim Ferreira dos Santos e o escritor, crítico e colunista do “Prosa” José Castello debateram a obra, a vida e o legado de Rubem Braga, em mesa com mediação do jornalista Mauro Ventura, também do Globo. Durante o evento, a editora Record lançou quatro livros, entre eles a reedição de Na cobertura de Braga, de Castello.

Curador da exposição “Rubem Braga: Fazendeiro do Ar” – atualmente em Vitória – Joaquim Ferreira dos Santos acredita que a obra do cronista influenciou toda uma geração de leitores, que, como ele, leram Braga até se fartar:

“Diria que ele não foi uma escola só para os jornalistas, mas para uma cidade toda. Rubem pega o legado da crônica e formata uma prosa poética, com um humor que vem dos modernistas. É um texto de bermuda, leve, que flui, mas sem perder a profundidade”.

“Temas universais”

Entre os lançamentos da noite, uma edição de luxo para “200 crônicas escolhidas”, maior sucesso comercial de Braga, que contém a fina flor de suas crônicas, selecionadas pelo próprio. Estão lá os passarinhos, as miudezas do cotidiano, as lembranças de menino e as impressões de flaneur – temas “menores” que se tornaram memoráveis na pena do Pelé da crônica.

Em Na cobertura de Rubem Braga, Castello compôs o que resumiu como “uma crônica sobre o cronista”. O livro traça um panorama da obra do autor, que assinou mais de 15 mil crônicas, foi correspondente de guerra e cultivou em sua cobertura em Ipanema um bosque que lhe valeu o epíteto “Fazendeiro do Ar”.

“Ele consolidou o gênero e lhe deu feições definitivas. Rubem Braga é o grande mestre desse gênero limítrofe que oscila entre a ficção e a verdade”, diz Castello.

Em Retratos parisienses – uma inédita compilação feita por Augusto Massi sobre o trabalho de Braga como correspondente do jornal “Correio da Manhã” na França, entre 1949 e 1952 – o leitor pode conhecer outra de suas facetas. Ao lado do amante das sutilezas aparece um intelectual interessado em arte, cinema e literatura, desbravando a fulgurante vida cultural da Paris de Sartre e Picasso.

Livro ilustrado infantil elaborado a partir de uma crônica de Braga, “O menino e o tuim” foi mais um dos relançamentos da noite, com novas ilustrações, de Maurício Veneza.

Mauro Ventura acredita que a obra de Braga pode ser uma porta de entrada para os jovens ingressarem no mundo da leitura. Foi o seu caso, ele conta, quando o pai lhe mostrou a clássica crônica “Aula de inglês”. Para ele, o legado do Velho Braga permanece atual:

“Por mais que os textos tenham características da época, eles são atemporais, pois os temas são universais. Como, por exemplo, um homem mais velho que diz que um muro frio e triste se levantou de repente quando uma jovem o chamou de senhor”.

Pedro Sprejer, do Globo,em 02/04/2013 na edição 740.
(Reproduzido do suplemento “Prosa&Verso” do Globo, de 30/3/2013)

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BIBLIOTECAS E LIVROS


                         

“Ler ou não ler” é, uma vez mais, a questão.

Filipe de Sousa

Nas sociedades contemporâneas, a leitura (em contexto escolar, profissional ou de lazer) assume um papel importantíssimo na promoção do desenvolvimento cultural, científico, político e, consequentemente, econômico dos povos e dos indivíduos. Por isso, tanto se tem refletido sobre a forma de incentivar e motivar as pessoas para a leitura, em especial as crianças e os jovens, que ainda não criaram e enraizaram esse hábito tão enriquecedor.

Interlocutor privilegiado, pelo tempo que partilha com os mais novos, a escola pode ajudar a criar e a sedimentar hábitos de leitura quer promovendo e explorando o livro, com temáticas adequadas e atrativas para as correspondentes faixas etárias, quer dinamizando atividades inovadoras e interessantes com livros na biblioteca escolar, quer propondo a navegação em sites diversificados que põem o aluno em contacto com a leitura de diferentes suportes, muitas vezes interativos. Estas são, fundamentalmente, as questões sobre as quais nos debruçaremos no artigo que se segue.

As crianças e os jovens aprendem muito do que sabem acerca do mundo e da vida espontaneamente, em contextos muito diversificados que abrangem o grupo familiar, o círculo de amigos, as micro-sociedades ou grupos em que se inserem e os meios de comunicação social, desde a televisão até à Internet.

Mas é, sem dúvida, na escola e, frequentemente, através do livro, que aprendem de forma mais organizada a sistematizar as informações e os conhecimentos, a pensar, a olhar com espírito crítico a realidade circundante, a problematizar o mundo, a encontrar resposta para os problemas que enfrentam, a respeitar as diferenças étnicas, sociais e pessoais e, muitas vezes, a interiorizar os seus direitos e deveres, como pessoas e como cidadãos. Enfim, o contacto com o livro enriquece culturalmente o indivíduo e promove a sua autonomia. Para já não falar, especificamente, da importância do livro e da leitura para o melhoramento da competência linguística oral e para a aprendizagem do código escrito da sua própria língua.

De ano para ano vamos tendo cada vez a sensação mais nítida de que aumentam os problemas relacionados com a competência linguística oral e escrita dos jovens em geral, problemas esses denunciados diariamente pela própria família, pelos meios de comunicação social e, claro, amargamente constatados por todos os professores. É visível e constrangedora a dificuldade de certos adolescentes em exporem claramente um raciocínio. No âmbito da escrita já não são só os problemas ortográficos, mas é também o domínio deficiente da pontuação, da acentuação gráfica, da própria construção sintática da frase, bem como o da construção de um simples texto.

Neste contexto, afigura-se-nos óbvia a importância do livro e da leitura como fonte de saber e de cultura e como meio eficaz de aperfeiçoamento linguístico. Todavia, o difícil é ser capaz de conduzir as crianças e os jovens à leitura, quando estão rodeados de tantas e tão diversificadas solicitações e quando, por vezes, até o próprio meio familiar parece avesso a esta atividade e a tudo o que com ela diretamente se relaciona (nomeadamente, consagração efetiva de uma parcela do tempo livre à leitura, discussão de aspectos sobre os quais o livro que lemos nos fez refletir, exteriorização do prazer de ler, visita regular à biblioteca e à livraria e aquisição habitual de livros).

Não pretendemos refletir aqui sobre as razões sociológicas desta falta de tempo familiar para a leitura, senão mesmo falta de vontade, mas é certo que ela não contribui minimamente para a motivação intrínseca para ler que as crianças e os jovens deveriam ter.

Por outro lado, se a própria comunidade escolar (digo, comunidade escolar, e não só professores de Português) não conseguir mostrar aos alunos uma atitude muito positiva em relação ao prazer de ler, quer a finalidade seja informativa ou recreativa, e se não encarar a biblioteca como um espaço de cruzamentos curriculares, de modo a que a sua dinamização seja contínua e feita por todos, dificilmente conseguirá cativar os alunos para a leitura. 

1º de Julho: Dia Mundial das Bibliotecas. Vamos valorizar?

“Todos pela dinamização das Bibliotecas Escolares e Públicas”.

Texto publicado no jornal: GAZETA VALEPARAIBANA

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História da Capoeira


                                       Heidi Strecker*

A capoeira é ao mesmo tempo uma luta e uma arte. Mas você sabia que durante muito tempo a capoeira foi proibida no Brasil? Quem vê crianças pequenas jogando capoeira nas escolas ou Rodas de Capoeira com a apresentação de grandes mestres nem pode imaginar que essa conhecida forma de expressão das raízes negras era mal vista e considerada perigosa.

Para jogar capoeira precisamos de um ritmo, ditado pelo atabaque, pelo berimbau e pelo agogô. Essa música é bem característica. Dois parceiros, de acordo com o toque do berimbau, executam movimentos de ataque, defesa e esquiva. Eles simulam uma luta. Para jogar capoeira é preciso habilidade e força, além de integração e respeito entre os parceiros.

O gingado é a base da capoeira. É um movimento ritmado que mantém o corpo relaxado e o centro de gravidade em constante deslocamento. A partir do gingado surgem os outros movimentos de ataque ou contra-ataque. Os jogadores nunca estão parados e isso torna a capoeira muito bonita de se ver.

 História

A origem da capoeira data da época da escravidão no Brasil. Muitos negros foram trazidos da África para o Brasil para trabalhar nos engenhos de cana-de-açúcar, nas fazendas de café, nas roças ou nas casas dos senhores. A capoeira era uma forma de luta e de resistência.

Porém, para não despertarem suspeitas, os escravos adaptaram os movimentos da luta aos cantos da África, fazendo tudo parecer uma dança. A capoeira foi ficando do jeitinho que ela é hoje, gingada.

No início do século 19, no Rio de Janeiro, bandidos e malfeitores eram chamados de “capoeiras”, como registrou o escritor Manuel Antônio de Almeida, em "Memórias de um Sargento de Milícias". Em 1888, a escravidão foi oficialmente abolida no Brasil. Muitos negros libertos não tinham como sobreviver e acabaram na marginalidade. Em Salvador, chegaram a organizar gangues e provocar rebeliões. Durante muito tempo a capoeira foi proibida.

Na década de 1930 a capoeira já tinha adquirido um novo status em nossa sociedade. O próprio presidente Getúlio Vargas convidou um grupo de capoeira para se apresentar oficialmente no Palácio do Catete. A capoeira foi liberada. Professores de capoeira da Bahia se tornaram famosos, como os mestres Bimba, Pastinha e Gato, imortalizados nos romances de Jorge Amado.

Hoje em dia há muitas formas de jogar capoeira e a mais tradicional preserva as raízes africanas, como a Capoeira Angola, na Bahia.

*Heidi Strecker é filósofa e educadora.

FONTE: http://educacao.uol.com.br/cultura-brasileira/capoeira-origem.htm 

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Um Novo Modo de Ler

                       Muniz Sodré

Eis um fato que hoje pouco se comenta (ou que, na verdade, pouco se sabe): o livro não tinha maior importância na aurora do sistema de pensamento que veio a se chamar de Ocidente. Isto foi frisado por Heidegger. Pensar, para o antigo grego, era atividade pública e oral.

Em nossa modernidade, entretanto, a forma codex (escrita unidirecional, páginas organizadas em cadernos e costuradas), depois chamada livro, impôs-se aos usos e aos espíritos como locus do conhecimento centrado, da leitura que constitui pastoralmente a cidadania, da produção do sentido e do real medidos pela escala do humanismo. O livro é a melhor das metáforas para a educação, para o conhecimento que, no passado fordista, garantiu a ascensão social dos estratos mais pobres e sem o qual não se pode hoje conceber dinâmica de crescimento econômico. Tal é horizonte em que o livro foi olhado pelos pobres como tábua de salvação.

Por isso, guardar o livro e estimular a sua circulação por políticas adequadas implicam preservar o fio condutor das idéias que garantem a transmissão intergeracional do sentido de povo e de Nação.

Essa transmissão faz parte do segredo da cultura.

Mas estamos inclinados a achar que o futuro humano dos modos de transmissão do saber depende não tanto da mera natureza técnica do dispositivo (bits ou papel), e sim da conquista de uma forma suscetível de nos oferecer abrigo contra os perigos de morte do sentido. Pensamos que, para isso, seria necessário termos como ponto de partida o fato que a leitura é, hoje, uma prática heterogênea ou plural.

Ou seja, há novos modos de ler.

De fato, o impresso (livro, revista, jornal, etc.) não é a única coisa que se lê. Basta atentarmos para todas as acepções da palavra latina interpretari, para nos darmos conta de que ela significa também ‘ler’ — e numa maior amplitude do que legere, que se consolidou com o sentido de recolher e juntar as letras dentro das regras da razoabilidade (o logos moderno) unidimensional e linear. Na verdade, nós estamos lendo quando interpretamos um anúncio publicitário, um outdoor, um videoclipe. E certamente lemos um hipertexto — em que fazemos necessariamente conexões com uma textualidade diversa — de maneira diferente de um livro.

Há, portanto, uma diversidade de escritas, assim como uma diversidade de leituras.

Essa diversidade é acelerada pelas tecnologias do virtual, essas mesmas que conformam uma nova ambiência comunicativa e formas novíssimas de existência. Trata-se do que vimos chamando de bios midiático, ou seja, uma nova forma de vida que implica indistinção entre tela e realidade — realidade ‘tradicional’, bem entendido, uma vez que a realidade de hoje já se constitui dentro da integralidade do espetáculo ou da imagem a que aspira o virtual.

Por conseguinte, as novas formas de escrita e de leitura circulam no mesmo contexto sócio-cultural dos modelos industriais que transformam a vida em sensação ou em entretenimento. É o contexto de uma economia poderosa voltada para a produção e consumo de filmes, programas televisivos, música popular, parques temáticos, jogos eletrônicos.

Mas o importante a se notar aqui é que a diversidade de escritas e leituras implica o descentramento cultural do livro, isto é, a perda do monopólio clássico de manutenção da memória e transmissão da cultura. Este é um movimento irreversível, principalmente quando se considera que é a juventude o sujeito coletivo da apropriação dessas novas escritas e leituras.

Em princípio, deveríamos nos rejubilar com essa verdadeira mutação cultural. Entretanto, somos levados a ponderar sobre a ausência de mediações ético-políticas para a relação que se estabelece entre esses jovens e as grandes organizações industriais, responsáveis pela produção e venda dos textos (letrados e imagísticos) que suscitam a diversidade de leituras. A única lógica aí predominante é a do mercado, e não da escola, esta forma de transmissão da cultura, baseada no livro, que vem criando os quadros das profissões e da cidadania desde o começo da modernidade européia.

Ao Estado impõe-se certamente a obrigação de formular políticas públicas de cultura capazes de construir as mediações requeridas pela mutação tecnológica e cultural em andamento. O Ministério da Cultura e o Ministério da Educação são os braços do Estado que já movimentam ativamente neste sentido.

Muniz Sodré é doutor em Comunicação Social, pesquisador, autor de livros, professor titular da UFRJ.

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Leituras


Nesta seção serão publicados textos teóricos sobre Livro e Leitura, de autoria de Mestres, Professores, Pesquisadores, em suma, Colaboradores da nossa Revista Percursos (www.canteirosdeobras.com), e agora, também, do nosso blog.

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Contar histórias: uma Arte Imortal.

Ana Lúcia Merege

Nos últimos anos, a arte de contar histórias vem sendo retomada não apenas por terapeutas e educadores, mas por pessoas de todas as formações, de várias camadas da sociedade, que se reúnem para partilhar sabedoria, afeto e energia através das narrativas.
Para faze-lo, não há regras: o melhor é usar o coração e a intuição, além da experiência que só se adquire através do tempo. No entanto, uma discussão acerca do que significa contar histórias e do que é necessário para isso pode nos levar a alguns pontos interessantes.
Em primeiro lugar, é preciso saber que contar histórias é uma arte popular. Uma aproximação excessivamente acadêmica e/ou sofisticada pode esvaziar o conteúdo emocional da narrativa, deixando o público pouco à vontade. Da mesma forma, deve-se ter em mente que, embora o ato de contar histórias possa se inserir numa proposta terapêutica ou num projeto pedagógico, não se pode agir de forma mecânica, apenas para cumprir um dever ou para ensinar o que quer que seja, de regras gramaticais a valores doutrinários. As histórias devem ser contadas por e com prazer. Se não, nem vale à pena começar.
O background cultural do narrador e a sua familiaridade com as histórias também são importantes. Ao narrar um conto maravilhoso, por exemplo, é muito mais importante conhecer e ser capaz de visualizar o cenário em que ele se desenvolve do que saber as palavras exatas. Saber de onde vem a versão que se está narrando é bom, mas melhor ainda é saber trabalhar, criativamente, com os elementos fornecidos pela narrativa, e ser capaz de levar o público a se identificar e se interessar por ela.
A escolha do repertório é fundamental para um contador de histórias. Segundo Sawyer, mesmo os contadores mais experientes encontram dificuldades com alguns textos e mais facilidade com outros, sugerindo que se trabalhe com três tipos básicos de material: literatura popular (onde se incluem os contos de fadas),contos literários e trechos de livros (Sawyer,1990,p.153). Para ela, a literatura popular é a mais fácil de trabalhar, pois tem uma linguagem universal e uma estrutura narrativa simples. A opinião é partilhada por Ribeiro, segundo o qual “por mais que os requintes e lançamentos literários sofram um constante aperfeiçoamento (...) a literatura infanto-juvenil continuará tendo a sua faceta mais atraente na literatura de tradição oral e mais propriamente nos contos de fadas” (Ribeiro,2002, p.14-15). Mesmo para um público de adultos (ou misto) essas histórias jamais perdem seu encanto, sendo no entanto aconselhável que o narrador a estude previamente, conhecendo-a bem, a fim de ser capaz de transmitir todas as nuances contidas em cada trecho e em cada elemento da narrativa.
A propósito desse assunto, é preciso esclarecer que existem diferenças entre contar, ler e representar histórias, embora todas elas envolvam uma preparação e uma performance mais ou menos elaborada. A forma como se vai trabalhar depende de nossos gostos, de nosso estilo, de nosso objetivo... e, antes de tudo, de nossa sensibilidade. De qualquer forma, o narrador se beneficiará do domínio de algumas técnicas de voz e expressão corporal, bem como – mais uma vez – do conhecimento profundo da história e dos personagens. A sutileza é sempre preferível ao exagero. Como diz Busatto, “o Lobo Mau não precisa falar grosso para demonstrar sua ferocidade (...). O que podemos carregar do teatro é justamente a intenção que carrega um ritmo preciso” (Busatto, 2003, p.76).
A partir daí, tudo se torna uma questão de tempo, de paciência, de experimentação e, porque não dizer, de ousadia por parte do narrador, que irá acertar e errar muitas vezes ao logo de sua trajetória. No entanto, se for essa a sua vocação, ele irá persistir... uma vez que, para o verdadeiro contador de histórias, o ato de narrar é parte inseparável da vida.
Contar histórias não é um ato apenas intelectual, mas espiritual e afetivo. Por isso, as melhores histórias são as que contamos espontaneamente, a partir do que carregamos em nossa bagagem de cultura e de experiência de vida. Independente de qualquer sentido, contar histórias pressupõe antes de tudo a vontade de falar do que se sabe, de doar sabedoria e conhecimento, de passar adiante aquilo que se aprendeu. Mais simplesmente ainda: contar histórias é aumentar o círculo. E, mesmo na falta de uma fogueira ou das lareiras de nossas avós, podemos faze-lo aqui e agora, partilhando nossas histórias, lançando fios invisíveis que nos unem numa só rede.

Leituras sugeridas:
BUSATTO, Cléo. Contar e encantar. Petrópolis:Vozes, 2003.
FITZPATRICK, Jean Grasso. Era uma vez uma família. Rio de Janeiro:
Objetiva, 1998.
MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde
cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
RIBEIRO, Jonas. Ouvidos dourados. São Paulo: Ave-Maria, 2002.
SAWYER, Ruth. The Way of the storyteller. New York: Penguin Books,1990.
SIMPKINSON, Charles e Anna (org.). Histórias sagradas. Rio de Janeiro:
Rocco, 2002.


Ana Lúcia Merege - Formada em Biblioteconomia pela UNIRIO e Mestre em Ciência da Informação pelo IBICT/UFRJ. Trabalha na Biblioteca Nacional, na Divisão de Manuscritos; escreve artigos para revistas como a “Ciência Hoje das Crianças”. Pesquisadora em Mitologia, Folclore e Literatura. Além de um livro sobre os contos de fadas: “Os Contos de Fadas: Origens, História e Permanência no Mundo Moderno”, escreveu dois romances: “O Caçador: um conto de fadas em mosaico” e “O Jogo do Equilíbrio”.

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PARA GOSTAR DE LER

Nagib Anderáos Neto

Quando se vê as estatísticas sobre produção e consumo de livros no país, número de livrarias e desenvolvimento do mercado livreiro nos últimos anos, chega-se à conclusão que o quadro nacional é desalentador. Uma livraria para oitenta mil habitantes; dois livros lidos por habitante por ano; duas mil livrarias em todo o país. Os números são assustadores, mesmo quando comparados com países vizinhos como a Argentina que, em números relativos, chega a ter, quase, quinze vezes mais livrarias que o nosso país.
Como reverter este quadro? O que fazer para que os jovens passem a ler mais e a matar menos o tempo em inutilidades?
Afinal, por que ler é importante?
Não falemos da literatura imprestável, dos enganadores, dos impostores, dos que vendem palavras sem conteúdo, auto-ajudas que não valem nada. Falemos das obras de qualidade que ajudam a pensar, a criar, a se comunicar.O leitor é também um criador orientado pelo autor; constrói personagens, convive com eles, extasia-se, sofre, transporta-se para outros locais e outras épocas, busca soluções, pensa, sente e vibra com o desenrolar do romance ou do conto, reflete com as reflexões do autor, amplia seus conhecimentos sobre o mundo e sobre os homens, aprende a ouvir, falar e escrever.
Através da leitura e da escrita podemos chegar a muitas partes e a muitos mundos, revisitar o passado e arrojarmo-nos para o futuro, reviver ou viver por antecipação.
Cada bom livro é uma aventura particular e única que pode ser muito útil a quem empreende esta viajem ímpar. Os livros são como os seres humanos: nascem, tem um tempo de vida e desaparecem. Podem surgir depois de muitos anos em novas edições, se forem muito bons. Há os que têm conteúdo e os vazios, os bons e os maus; os inteligentes e os ignorantes. Sua leitura pode ajudar a leitura da própria vida, dos próprios dias, do próprio acontecer.
Devemos todos ler muitos livros, bons livros, e dar um exemplo para que os jovens aprendam a gostar de ler.
Há um livro, em especial, ao qual devemos dar a máxima atenção a cada dia de nossa existência: o nosso próprio livro, o livro de nossa vida, aquele que vamos escrevendo e lendo a cada dia, no qual somos autores e personagens, onde ficará consignada a nossa trajetória humana nesta breve passagem pela Terra, o livro dos livros, o livro da vida, a obra pessoal que cada um de nós pode e deve realizar

Nagib Anderáos Neto – é engenheiro e escritor

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LEITURA: UMA PROBLEMÁTICA

Oeni Custódio Marins

O prazer da leitura é um caminho barato e ajuda as pessoas a melhorar suas capacidades cognitivas em todos os sentidos. Desenvolve o conhecimento em geral, nos dá subsídios para refletir sobre o mundo e condição humana, em um mergulho profundo na problemática existencial do homem.

Uma pesquisa divulgada pelo National Endowment for Arts, fundação americana dedicada à promoção da cultura, conclui que quem lê regularmente por prazer tem uma vida muito mais ativa e bem sucedida do que aqueles que preferem passar o tempo livre vendo televisão ou dedicando-se a outras atividades que não exigem raciocínio. Para os primeiros, a vida é uma sucessão de novas experiências e de ampliação dos horizontes. Para quem se enquadra no segundo caso, a maturidade torna-se um processo de atrofia mental. “A informação está cada vez mais ao nosso alcance, mas a sabedoria, que é o tipo mais precioso de conhecimento, só pode ser encontrada nos grandes autores da literatura. Esse é o motivo pelo qual devemos ler”, disse a VEJA o americano Harold Bloom¹, o mais importante crítico literário em atividade.

O bombardeio de informações é estonteante, mas a informação se mede por qualidade e não quantidade. Por isso, temos às vezes a sensação ao chegar no final do dia, que vivemos todos imersos em uma sociedade caótica. Sendo assim, os prazeres intelectuais, as diversões, a espiritualidade, ficam em um segundo plano, secundário ou até mesmo esquecidos.

O americano Mark Edmundson, professor de língua inglesa da Universidade de Virgínia e autor do livro Why Read? (Por que ler?) desenvolve a tese de que a leitura “é a segunda chance que a vida oferece para o nosso crescimento pessoal” ². Durante a infância e a adolescência, segundo ele, passa-se por um processo de socialização. Aprende-se o que é certo e o que é errado com os pais e os professores e se começa agir de acordo com o senso comum. Depois, é a leitura que nos permite desenvolver idéias próprias, conceitos e valores.

Não se trata, portanto, simplesmente de ensinar alguém a decodificar um código qualquer de comunicação, muito além, trata-se de fazer o sujeito ser capaz de verificar que o texto reflete na própria vida e os problemas lidos são atinentes ao seu tempo, pois a leitura não tem época, já que é atemporal e também situa além de qualquer espaço perfeitamente delimitado. A literatura, como arte generaliza e nos coloca dentro do problema que discute.

Referência Bibliográfica:
(1)
Revista Veja. “Os donos de si”. Editora Abril, edição 1868, ano 37, nº 34, 25/08/2004, p.96)
(2) - Idem

Oeni Custódio Marins -
Professora de Leitura, Graduada em Língua Portuguesa pela Universidade do Sagrado Coração/SP e com especialização em Educação.

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LEITURA, SABER E PODER.

Luiz Lyrio


Na antiguidade, somente um grupo seleto que servia os interesses dos poderosos sabia ler. O acesso à leitura e ao saber era privilégio de poucos, enquanto a imensa maioria da população, analfabeta e ignorante, era presa fácil da manipulação das elites.
Passados seis milênios de Civilização, o saber ler democratizou-se e acabou tornando-se habilidade também das ditas “classes inferiores”. Num primeiro momento, o acesso à leitura pelos dominados trouxe grandes prejuízos para os donos do poder. As “classes inferiores” passaram não só a absorver, como também a produzir saber. Desvendando a crueldade do jogo sórdido que os condenava à miséria e à submissão, os intelectuais provenientes ou solidários às classes exploradas passaram a idealizar modelos de sociedade totalmente divorciados dos interesses dos grupos dominantes.

Entretanto, após um período historicamente efervescente, marcado por guerras “quentes” e “frias” entre ideologias que confrontavam os interesses antagônicos de dominantes e dominados, os detentores do capital obtiveram vitórias significativas. Donos, agora, de um poder globalizado e tendo em suas mãos armas bem mais destrutivas e formas bem mais complexas de controle da mente humana, as elites dominantes do século XXI passaram, então, a não se descuidar de nada, quando se trata de garantir sua hegemonia no mundo. E, além de massacres desnecessários com o único objetivo de aterrorizar quem pensar em se contrapor a eles, os donos do mundo do século XXI aperfeiçoaram formas terríveis e avassaladores de robotização do ser humano.

Hoje, uma das formas de engessamento da mente humana, é as regras impostas “para uma boa comunicação escrita”. De repente, somente textos curtos comunicam. Textos longos são considerados cansativos. Com o sucateamento do sistema de ensino destinado às “classes inferiores”, aliado aos poderes hipnóticos e subliminares da televisão e do computador, hoje, a imensa maioria das pessoas se divide em analfabetos funcionais - incapazes de interpretar o que lêem - e de semi-analfabetos por opção, que são aqueles que, ao verem um texto mais longo, partem a procura de mensagens sucintas, gravuras ou fotos.

Estamos todos submetidos à ditadura da objetividade. A enxurrada de textos curtos e objetivos ampliou, nos últimos anos, o imenso exército de criaturas humanas com conhecimento precário e superficial da realidade, e, o pior, qualitativamente desinformado.

Como não se consegue abordar responsavelmente nenhum assunto sério com poucas palavras, textos “enxutos” são secos demais. Não é à-toa que os grandes problemas do mundo atual, quando seriamente abordados, dão origem a longos tratados. Quando se quer julgar alguém que cometeu um crime, consomem-se páginas e páginas nos processos. E ninguém se forma na faculdade lendo “textículos” e folheando livros especializados, em busca de gravuras. Há um quase consenso na sociedade de que quem vai exercer qualquer tipo de poder tem que ter lido e estudado muito. Já quem está destinado a obedecer.

A leitura, como no passado, voltou a ser privilégio de um seleto grupo que serve aos poderosos. E, hoje, quem controla o poder, muitas vezes por trás dos bastidores, são assíduos leitores de tratados extensos. Alguns deles, dotados de talentos especiais, são verdadeiros mestres na elaboração de textos curtos e objetivos, que visam manipular um numeroso e acomodado rebanho, formado por analfabetos funcionais ou por pessoas que, simplesmente, "não gostam de ler".

Luiz Lyrio – professor e escritor.
Contatos:
www.lyr.myblog.com.br ou revistalo@yahoo.com.br

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